O Futuro dos Negócios com o Gigante Asiático

Guilherme Rizzo Amaral

Jornal do Comércio

14/01/2019

Há uma década, em 2009, a China se tornou o maior comprador de produtos brasileiros, ultrapassando os Estados Unidos na primeira posição ao embarcar US$ 22,8 bilhões na aquisição de itens como minério de ferro, soja e derivados de petróleo destinados ao gigante asiático. Naquele mesmo ano, os EUA adquiriram aqui o equivalente a US$ 15,6 bilhões, de acordo com o antigo Ministério de Desenvolvimento Indústria, Comércio, atual Ministério da Economia. Hoje, a China importa do Brasil mais do que o dobro dos norte-americanos: US$ 61,3 bilhões, ante US$ 26,2 bilhões dos Estados Unidos.

Em 2018, passada uma década, a guerra comercial entre EUA e China eleva as relações de negócios entre os dois países. Inicialmente, o Brasil ganha ainda mais importância como parceiro chinês. Mas o País também poderá sofrer os revezes de um menor crescimento do comércio global, afetado pelo conflito, o que prejudicaria a todos, indistintamente. O futuro dessa guerra comercial é uma das grandes incertezas e um dos riscos de 2019.

Há quem diga que, mais do que comercial, o conflito é por poder, hegemonia e capacidade de influência de questões como preços de commodities a decisões políticas mundo afora. Hoje, de certa forma, os dois países vivem uma escala ampliada do movimento de disputa econômica que ocorreu entre 2008 e 2009. Os EUA entraram em crise financeira e de liderança global, com a quebra de bancos como o Lehman Brothers.

Naquele período, o país reduziu suas compras em 25% em relação a 2008, quanto importou do Brasil US$ 21,73 bilhões. Já a China estava em franca expansão, ainda com seu PIB crescendo quase 10% ao ano, e ampliou de um ano para outro suas aquisições brasileiras em 24,7%, passando de US$ 18,33 bilhões para US$ 22,86 bilhões. Depois disso, em 2013, o gigante asiático superou a soma de todos os 28 países da União Europeia (UE) em valor de compras feitas no Brasil. E dessa primeiríssima posição nunca mais saiu.

Em 2018, até novembro, a China já importou do Brasil US$ 61,3 bilhões – quase 60% acima de toda a UE (US$ 38,6 bi) e mais do que o dobro das compras feitas pelos norte-americanos (US$ 26,25 bilhões). Para 2019, um ponto que pode suscitar incertezas nas relações sino-brasileiras é sobre como será o relacionamento com o novo governo do presidente Jair Bolsonaro, que, antes e durante a campanha, criticou o país ao dizer que a China “não está comprando do Brasil, está comprando o Brasil”, e cujo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, também fez declarações pouco amigáveis ao maior parceiro comercial antes mesmo de tomar posse. No caso, os temores são mais pelos investimentos do que pelas compras de produtos em si.

Esses dois fatores (eleições brasileiras e guerra comercial), de alguma forma, já afetaram os investimentos chineses no Brasil em 2018, principalmente por certo represamento dos aportes por aqui, de acordo com Conselho Empresarial Brasil-China (Cebc). Quase 30% dos investimentos esperados para o país em 2018 não ocorreram. Resta saber se o que não saiu no ano passado sairá em 2019 e como o conflito com os EUA e as posições do novo governo impactarão neste ano. Para Gabriel Fragoso, cientista político do conselho, é difícil fazer algum tipo de prospecção bem fundamentada para 2019. Ele aponta, porém, que a baixa efetividade de 2018 é uma tendência.

“É de conhecimento público que o novo governo quer vender estatais, especialmente do setor de energia e, possivelmente, outras concessões. E sabemos do interesse chinês nesse tipo de ativos”, analisa o executivo do CEBC.

O destino dos investimentos chineses no Brasil mostra muito sobre como a relação comercial foi mudando ao longo do tempo e para onde está se encaminhando. Até 2010, os aportes chineses eram direcionados, principalmente, para compras no setor de commodities, de acordo com o CEBC, avançou para setores industriais, de serviços (principalmente após 2013) e, desde então, se fortaleceu em setores de logística e energia. Entre 2007 e 2017, segundo levantamento do conselho, a China aplicou no Brasil US$ 55 bilhões em 115 empreendimentos.

“Mas será cada vez mais difícil para nós acompanharmos os investimentos chineses no Brasil, que tendem a ser mais difusos e com tíquete médio um pouco menor, já que serão participações em negócios, e não aquisições, como no caso da Tencent investindo no Nubank e a Didi no aplicativo de transporte 99”, ressalta o cientista político. Nessa linha, Fragoso diz que deve aumentar consideravelmente os recursos chineses que serão pulverizados pela economia brasileira com aporte e compra de pequenas startups. E, claro, é mais fácil e visível verificar a compra de grandes hidrelétricas do que pequenas empresas. “Isso será um desafio para os nosso controles”, resume Fragoso.

Investimentos se fortalecem na cadeia produtiva da soja

O agronegócio é um bom exemplo da evolução da presença chinesa no Brasil. A compra de alimentos, especialmente soja, é um dos carros-chefe das vendas, e talvez o que tenha sofrido mais mudanças ao longo do tempo. Inicialmente focada na aquisição de grãos brasileiros, como a soja, passou para compra de terras (que começou a ter limitações para estrangeiros a partir de 2010) e, hoje, se ampliou para armazenagem e transporte. Em 2018, cerca de 8% da soja exportada pelo Brasil teve como destino o gigante asiático.

Um dos maiores símbolos do novo foco chinês na soja brasileira é China National Cereals, Oils and Foodstuffs Corporation (Cofco). A companhia ganhou corpo no Brasil ao comprar, entre 2014 e 2015, operações da Nidera e da Noble Agri, por exemplo. Também dentro do complexo soja, a China investe no escoamento da oleaginosa comprando ou construindo terminais próprios em portos brasileiros, como em Paranguá (PR) e São Luiz (MA).

Há quem avalie que, com tanto controle da cadeia da soja, os chineses poderiam influenciar demasiadamente nos preços do grão. Para o especialista em agronegócios na embaixada da China, Hugo Peres, o temor não faz sentido. “Quem regula os preços é o mercado internacional”, resume Peres.

Para o pesquisador do Conselho Empresarial Brasil-China (Cebc), Gabriel Fragoso, o que assusta os brasileiros é mais a velocidade com que os chineses têm feito aquisições do que o volume total. “Há empresas norte-americanas e europeias comprando aqui e atuando no mercado do agronegócio há anos (como Bunge e Cargill) e ninguém diz nada”, exemplifica Fragoso.

O advogado do Escritório Souto Correa e especialista em China Guilherme Amaral concorda com Fragoso sobre a questão do temor causado mais pela velocidade do que pela quantidade em si. Até o final dos anos 1970, lembra o advogado, a China era um país pobre. Quando, em 1978, começou a grande reforma e abertura, passou por um processo acelerado de desenvolvimento e acúmulo de riquezas, enquanto o Brasil sempre avançou a passo lentos. Em 40 anos, o país asiático se tornou a segunda economia do mundo e, em breve, poderá ser a primeira.

Conflito comercial com os EUA apresenta reflexos negativos

No caso do impacto da guerra comercial da China com os Estados Unidos, iniciada no governo de Donald Trump, há dois tipos de reflexos projetados. O primeiro efeito imediato seria, aparentemente, o incremento das compras no Brasil, o que realmente ocorreu no ano passado, quando o País respondeu por cerca de 80% da soja importada pela China, que limitou compras dos EUA. A disputa comercial também poderia aumentar a venda de carne de frango e gado bovino do Rio Grande do Sul para Pequim.

“Mas um conflito deste tamanho não é bom para ninguém e promove uma elevada oscilação do dólar. Esse câmbio incerto é o pior que pode ocorrer para o produtor”, destacou o economista Antônio da Luz durante apresentação do balanço de 2018 para o agronegócio gaúcho e as perspectivas para 2019.

Outro fator negativo é que, com este problema para resolver, as atenções chinesas ganham muito mais peso em solucionar o conflito do que fazer investimentos externos, o que pode ajudar a manter um nível maior de represamento dos recursos direcionados para cá.

Em 2018, apenas 28% dos projetos anunciados efetivamente saíram do papel, ante 77% em 2017. E um dos motivos seriam essas incertezas sobre a guerra comercial aliadas ao cenário eleitoral no Brasil. “Estratégias que seriam para os negócios em geral, inclusive com o Brasil, acabam se direcionando para a resolução do conflito”, avalia Gabriel Fragoso, cientista político do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Como foi o movimento chinês

A participação da China supera a dos Estados Unidos desde 2009, a da União Europeia, desde 2013, e a da América Latina, desde 2014, exceto 2016.

Três produtos – minério de ferro, soja em grão e óleo bruto de petróleo – explicam mais da metade das exportações brasileiras para a China, desde o início dos anos 2000, uma dependência que tem crescido.

Em 2005, os minérios de ferro, soja em grão e óleo bruto de petróleo, explicavam 59% das exportações para a China e, em 2016, esse percentual foi de 7,3%.
Nem sempre foi assim: entre 1985-1989, cerca de 60% das exportações brasileiras para a China eram de manufaturas, em especial, produtos siderúrgicos. Na década de 1990, o percentual cai para 27%, depois 16% (2000-2009) e, por último, 5% (entre 2010/2016).

Declarações anti-China exigem atenção

Na esfera política nacional, o novo governo federal de Jair Bolsonaro chamou a atenção dos estudiosos de temas sino-brasileiros devido a declaração do novo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, de que existe um complô marxista mundial para favorecer a China.

A análise de Araújo causa estranheza em especialistas como o advogado Guilherme Amaral, do Escritório Souto Correa, embaixador para divulgação da câmara de conciliação especialmente dedicada aos conflitos na nova Rota da Seda chinesa dentro da Corte Internacional de Arbitragem (ICC). “A visão do novo ministro é, na minha opinião, desconecta da realidade. É uma ideia ainda muito de Guerra Fria e dois polos ideológicos extremos, capitalista e comunista ou socialista”, diz Amaral.

Gabriel Fragoso, cientista político do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), também ameniza as posições do novo governo, que desde o final das eleições teria, segundo ele, colocando panos quentes em suas próprias declarações e atos para amenizar o clima diplomático azedo desde o início do ano.

Em fevereiro de 2018, ainda como deputado federal, em roteiro pela Ásia, Bolsonaro ignorou Pequim e visitou apenas Taiwan. Ao passar apenas pela ilha que busca a independência, representando o Congresso, gerou forte crítica do governo de Xi Jinping no Brasil.

Em documento enviado ao governo brasileiro, a embaixada da República Popular da China criticou a visita a Taiwan, alertando que a viagem de Bolsonaro, representando o Congresso, viola o “princípio de uma só China, consenso amplo da comunidade internacional e política explicitamente defendida pelo governo e Congresso” e que foi “uma afronta à soberania e integridade territorial da China”, o que poderia “causar eventuais turbulências”, já que o Brasil mantém relações diplomáticas com a China, e não com Taiwan.

Apesar da imagem anti-China criada por Bolsonaro desde então, Fragoso avalia que está havendo uma aproximação com a gigante asiático. E cita o fato de um dos primeiros representantes internacionais com os quais Bolsonaro conversou após as eleições foi com o embaixador chinês no Brasil.

“Depois das eleições, as declarações dele são muito mais amenas e se colocou panos quentes nesta situação. Mas essas e outras declarações mudam um pouco a foram como os chineses veem o Brasil, mas não o interesse pelo Brasil”, avalia Fragoso.

Pensamento semelhante tem Amaral, para quem as declarações não reduzirão o interesse pelas privatizações brasileiras, mas leva empresários e governo asiático a ter mais atenção e cuidados com a política nacional. “A China deverá verificar agora, por exemplo, em que medida o governo brasileiro vai dar ‘boas vindas’ a uma empresa chinesa da mesma forma como dá um investimento alemão, norte-americano…”, avalia o advogado.