Radar Regulatório • Apostas de Quota Fixa (Edição 04)

Semana de 15 a 19 de junho de 2026

A semana foi marcada pelo aperto do cerco ao mercado ilegal — e, desta vez, com o Presidente à frente: um novo decreto autoriza o bloqueio do dinheiro das bets clandestinas. A conta também passou a chegar para além do operador, com pagamentos, anunciantes e fornecedores de jogos na linha de frente da fiscalização, enquanto o regulador reuniu em Brasília uma ampla coalizão em torno do Jogo Responsável. Abaixo, os pontos que merecem sua atenção.

Governo passa a congelar o dinheiro das bets ilegais — e quer destiná-lo à segurança pública

O grande anúncio da semana veio do Planalto. O Presidente da República assinou um decreto que autoriza o governo a bloquear preventivamente os recursos de casas de apostas que operam sem autorização: quando a Fazenda e a Justiça identificarem indícios de ilegalidade, os bancos serão comunicados para congelar as contas ligadas àquelas operações e, respeitado o devido processo, o dinheiro poderá ser destinado ao Fundo Nacional de Segurança Pública. Segundo a Fazenda, já são cerca de 50 mil sites ilegais bloqueados, 350 operadores identificados e 37 instituições financeiras sob suspeita de movimentar recursos irregulares. A medida se apoia na chamada Lei Antifacção.

O que isso significa: o combate ao mercado ilegal ganhou uma alavanca poderosa — bloquear o dinheiro, não só derrubar sites. Para instituições financeiras, sobe a pressão para identificar e congelar rapidamente contas ligadas a operadores irregulares. Para o operador autorizado, há um lado competitivo positivo: o cerco financeiro tende a reduzir a concorrência predatória do mercado clandestino. Vale acompanhar como o bloqueio preventivo será operacionalizado, sobretudo o equilíbrio com o devido processo legal.

Fazenda responsabiliza meios de pagamento e anunciantes pelo imposto das bets ilegais

Saiu uma novidade concreta — e já em vigor. Uma nova portaria do Ministério da Fazenda, publicada no Diário Oficial nesta semana, torna meios de pagamento e anunciantes corresponsáveis pelos tributos devidos por operadores de apostas que atuam sem autorização. Ou seja: quem ajuda a viabilizar a aposta ilegal pode ser cobrado pelo imposto que o operador clandestino deixou de pagar.

Para instituições financeiras e de pagamento, a responsabilidade vem com um gatilho. A SPA e a Receita Federal farão uma notificação conjunta apontando o operador irregular — com CNPJ, a transação e a conta usada — e o meio de pagamento terá 24 horas para adotar medidas que impeçam novas transações com aquele operador. Se não agir, passa a responder, junto com o operador, pelos tributos devidos.

Para quem faz publicidade, a régua é ainda mais dura: a responsabilidade independe de qualquer aviso prévio. Quem divulgar propaganda de um operador não autorizado já entra automaticamente na corresponsabilidade tributária — sem notificação e sem prazo. A cobrança será formalizada em processo administrativo, com direito a contraditório e defesa.

O que isso significa: o governo transformou o combate ao mercado ilegal num problema de bolso para toda a cadeia — pagamentos e publicidade, não só o operador. Para fintechs e instituições de pagamento, o ponto crítico é o prazo de 24 horas: é preciso ter, desde já, um fluxo interno pronto para receber a notificação conjunta e bloquear transações no mesmo dia. Para agências, influenciadores, afiliados e veículos, o recado é direto: divulgar operador sem licença passa a trazer risco tributário automático — vale checar a autorização de qualquer casa antes de fechar publicidade ou patrocínio. Somada às propostas em tramitação sobre pagamentos e tributação, fica evidente o cerco à camada de infraestrutura do setor.

Provedores de jogos entram na mira da fiscalização

Uma novidade desta semana acende um alerta para quem fornece jogos ao mercado regulado. O Ministério Público abriu uma investigação contra um estúdio estrangeiro, fornecedor de um jogo muito popular do tipo “crash”, sob a suspeita de que o mesmo jogo certificado para as casas autorizadas estaria também sendo oferecido por operadores clandestinos. A medida foi publicada no Diário Oficial nesta semana.

Para o promotor, ao abastecer ao mesmo tempo o mercado legal e o ilegal, o provedor se aproveitaria da própria certificação técnica para dar visibilidade e aparência de regularidade a ofertas sem licença — sem recolher tributos e sem controles de prevenção à lavagem e de jogo responsável. A investigação também aponta indícios de publicidade enganosa, como diferença entre o retorno ao apostador (o RTP) anunciado e o efetivamente praticado, e de bônus com regras que contrariam as normas da SPA/MF. Trata-se de investigação em curso, baseada em apuração preliminar — não há, por ora, decisão de mérito.

O ponto mais sensível são as medidas cautelares pedidas. O Ministério Público recomendou à SPA/MF a suspensão imediata da certificação dos jogos do provedor — e o bloqueio do título inclusive nas casas autorizadas — até que a empresa comprove que parou de abastecer operadores ilegais e implementou controles adequados. À Anatel, pediu a derrubada dos links e domínios ligados ao jogo. Os órgãos têm 48 horas para informar as primeiras medidas e dez dias úteis para uma resposta conclusiva; se a via administrativa não bastar, o Ministério Público sinaliza que parte para medidas judiciais.

O que isso significa: a responsabilização começa a subir na cadeia — do operador para o fornecedor do jogo —, e a alavanca é a certificação. Se a recomendação prosperar, um estúdio pode ter um jogo popular suspenso em todo o mercado legal por causa do seu uso no mercado ilegal. Provedores e agregadores deveriam revisar, desde já, a quem licenciam seus jogos, as cláusulas de exclusividade e antipirataria nos contratos e a governança de RTP, bônus e prevenção à lavagem. Para os operadores autorizados, é um risco de continuidade: vale mapear a dependência de jogos de terceiros e ter um plano B para títulos sob risco regulatório.

Seminário da SPA põe consumidor e jogo responsável no centro — e aproxima a Justiça

A Secretaria de Prêmios e Apostas reuniu, em Brasília, seu primeiro grande seminário dedicado ao jogo responsável e à proteção do consumidor-apostador. O encontro juntou, no mesmo palco, o regulador das apostas, a Secretaria Nacional do Consumidor, Procons, Ministérios Públicos e Defensorias, especialistas no tratamento da dependência e o Conar. A pauta percorreu o superendividamento, a prevenção e o tratamento do transtorno de jogo e os desafios da publicidade nas redes sociais.

O seminário também produziu um resultado concreto: durante o evento, a Fazenda e o Ministério da Justiça assinaram um acordo de cooperação técnica, de três anos, unindo a SPA e a área de direitos digitais da Justiça para troca de informações, estudos e diretrizes conjuntas sobre apostas, proteção do usuário e prevenção de riscos no ambiente digital.

O que isso significa: o regulador está montando uma coalizão de fiscalização que vai muito além da SPA — defesa do consumidor, Ministérios Públicos, Defensorias, saúde pública e, agora, direitos digitais. Para os operadores, o recado é que a agenda de supervisão vai girar em torno de jogo responsável, superendividamento e publicidade (com lupa nas redes sociais), e será cobrada por várias frentes ao mesmo tempo. Vale alinhar desde já as políticas de jogo responsável e de publicidade ao que esses órgãos vêm sinalizando — é por aí que devem vir orientações, autuações e, eventualmente, novas regras.

Publicidade e pagamentos no centro: Congresso e STF avançam

A publicidade e os pagamentos viraram os grandes alvos regulatórios — e em várias frentes ao mesmo tempo. Na Câmara, ganhou corpo um bloco de projetos que restringem ou proíbem a propaganda do setor: dois deles foram reunidos a um mesmo tronco de tramitação nesta semana e um novo projeto, apresentado há poucos dias, propõe vedar a publicidade comercial das bets. Avança ainda um projeto que obrigaria bancos e instituições de pagamento a criar filtros para bloquear transações com operadores irregulares — já com relatora designada e prazo de emendas aberto. No Senado, parlamentares pediram a vinda do ministro da Fazenda e da secretária de Prêmios e Apostas para prestar esclarecimentos. E, no Judiciário, a lei gaúcha que restringe a propaganda do setor aguarda julgamento prioritário no STF, com pedido de suspensão feito pela Advocacia-Geral da União.

O que isso significa: Executivo, Congresso e estados puxam na mesma direção — mais restrição à publicidade e mais controle sobre os pagamentos. Nenhum projeto é lei ainda, mas a convergência sinaliza o rumo. Para quem anuncia ou patrocina, vale revisar desde já a estratégia de mídia; para a cadeia de pagamentos, o ponto a vigiar é a eventual obrigação de bloqueio. A palavra final sobre a competência dos estados ficará com o STF.

Cresce a litigância de consumidores contra operadoras nos tribunais

O monitoramento judicial da semana confirma um padrão: ações de apostadores contra operadoras autorizadas, sobretudo em Juizados Especiais, envolvendo sete casas monitoradas. Predominam pedidos de indenização por consumidores e disputas sobre retenção de prêmios, com resultados mistos — uma grande operadora manteve uma improcedência em São Paulo (o apostador não comprovou o crédito alegado) e outra foi condenada no Ceará a indenizar. Ganha corpo também o argumento da ludopatia, com apostadores em tratamento pedindo a anulação das apostas.

O que isso significa: o litígio de consumo deixou de ser pontual e virou rotina para quem opera no varejo. A comprovação técnica importa: operadoras com trilhas de dados robustas (registros de aposta e de transação) têm afastado condenações. Vale revisar a retenção de provas, os fluxos de atendimento e, sobretudo, os controles de jogo responsável, que estão no centro das ações de ludopatia.

Olhar para a semana que vem

  • Fornecedores (B2B): a SPA realiza nos dias 25 e 26 a audiência pública sobre o reconhecimento dos fornecedores de tecnologia e serviços aos operadores — o passo que antecede a portaria do setor B2B. É a janela para contribuir antes de as regras saírem; fornecedores e operadores devem acompanhar de perto.
  • Provedores de jogos: correm os prazos dados pelo Ministério Público (48 horas para as primeiras medidas e dez dias úteis para resposta) sobre a suspensão da certificação — vale acompanhar a reação da SPA/MF e da Anatel.
  • STF: atenção a eventual decisão sobre o pedido de suspensão da lei gaúcha de publicidade, que tramita em caráter prioritário.
  • Pagamentos: com a nova portaria em vigor, fintechs e bancos já devem ter pronto o fluxo de bloqueio em 24 horas após a notificação conjunta.

Nossa equipe está à disposição para discutir os impactos de qualquer um destes temas no seu negócio.

Este material tem caráter exclusivamente informativo e não constitui aconselhamento jurídico. As análises refletem o entendimento da equipe na data de publicação e podem ser revistas conforme evolução normativa ou jurisprudencial. Para orientação específica sobre situações concretas, consulte um advogado da equipe. © Souto, Correa Advogados — Prática de Regulação de Apostas.

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